The story
Bem-vindo ao sopé de um dos monumentos mais imponentes e significativos de Portugal. Pare por um momento e olhe para cima. O que vê diante de si, a Sé Velha de Coimbra, não parece apenas uma igreja, pois não?
Com as suas paredes grossas, janelas estreitas e ameias no topo, assemelha-se mais a um castelo, a uma fortaleza preparada para o combate. E, na verdade, quando a sua construção começou, em meados do século doze, era exatamente esse o espírito que se vivia. Coimbra era a capital do jovem reino de Portugal e situava-se na perigosa fronteira entre o norte cristão e o sul muçulmano.
Suba agora os degraus e aproxime-se da fachada principal. Imagine o mestre francês Roberto e o mestre Bernardo, os arquitetos que, sob o patrocínio de Dom Afonso Henriques, deram forma a este calcário dourado. Este é o único edifício românico em Portugal que sobreviveu quase intacto até aos nossos dias.
Observe o portal principal, com as suas arquivoltas decoradas com motivos geométricos e folhagens que parecem sussurrar segredos de tempos medievais. Ao contornar o edifício pelo lado norte, irá encontrar a Porta Especiosa. É um contraste fascinante.
Enquanto o resto da Sé é robusto e austero, este portal é uma joia da Renascença, esculpida pelo mestre João de Ruão. É como se a pedra tivesse sido transformada em renda, mostrando que, com o passar dos séculos, a dureza da guerra deu lugar ao refinamento da arte. Ao entrar, deixe que os seus olhos se habituem à penumbra fresca do interior.
O silêncio aqui tem um peso diferente. Caminhe pela nave central e olhe para o imenso retábulo do altar-mor. É uma obra-prima do gótico flamengo, em madeira dourada, tão detalhada que poderia passar horas a identificar cada figura sagrada.
Não deixe de procurar o túmulo de Dom Sisnando Davides, o moçárabe que foi o primeiro governador de Coimbra, um homem que personifica a mistura de culturas desta cidade. Antes de sair, dirija-se ao claustro gótico, um dos primeiros do seu género em Portugal, onde a luz do sol brinca com as sombras dos arcos ogivais. Mas a Sé Velha não é apenas um museu de pedra; ela vibra com a vida da cidade.
É nestas escadarias, onde talvez agora se encontre, que todos os anos se ouve o cantar melancólico dos estudantes. Durante a Queima das Fitas, a Serenata Monumental enche esta praça com milhares de capas negras e o som da guitarra de Coimbra, transformando este monumento num palco eterno de saudade e juventude. Ao continuar o seu caminho pelas ruas estreitas da Almedina, leve consigo a imagem desta sentinela de pedra, que há quase novecentos anos guarda a história, a fé e a alma de Coimbra.