The story of The 1756 demarcation of the Douro as the · 3 min · Português

O Berço da Ordem: Gouvinhas e a Demarcação do Douro

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The story

Bem-vindo a Gouvinhas, no concelho de Sabrosa. Peço que pare por um momento e deixe o seu olhar perder-se nestas encostas vertiginosas que mergulham em direção ao rio Douro. O que vê à sua frente não é apenas uma paisagem de uma beleza avassaladora; é, na verdade, um monumento vivo à persistência humana e à visão política.

Estamos no coração daquela que foi, em 1756, a primeira região vinícola demarcada e regulamentada do mundo. Imagine-se recuando quase trezentos anos. Naquela época, o vinho do Porto era já um sucesso internacional, mas a sua fama trouxe um problema: a fraude.

Misturavam-se bagas de sabugueiro para dar cor e vinhos de outras paragens para aumentar a quantidade. Foi então que surgiu a figura imponente de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal. Com um punho de ferro, ele decidiu que, para salvar o prestígio do Douro, era preciso colocar ordem no caos.

Em 1756, por ordem real, foram erguidos trezentos e trinta e cinco marcos de granito — os famosos Marcos de Feitoria. Estes pilares retangulares, que ainda hoje pode encontrar escondidos entre as vinhas ou à beira das estradas aqui em Sabrosa, delimitavam a zona onde se produzia o vinho de melhor qualidade, destinado à exportação. Se um vinho vinha de dentro desta linha, era considerado "de feitoria"; se vinha de fora, era apenas para consumo local.

Gouvinhas, onde nos encontramos, ficou orgulhosamente dentro desta elite. Ao caminhar por aqui, repare no solo sob os seus pés. Este xisto cinzento, que se parte facilmente em lamelas, é o segredo deste terroir.

Ele retém o calor do sol durante o dia e liberta-o à noite, forçando as raízes das videiras a descer dezenas de metros nas profundezas da rocha em busca de água. É uma luta constante da planta contra a dureza da terra, que resulta num néctar concentrado e potente. Sabrosa é também a terra que viu nascer Fernão de Magalhães, o homem que primeiro abraçou o mundo.

Mas é aqui, nestes socalcos de Gouvinhas, que o mundo veio ter connosco através do vinho. Cada muro de pedra posta que vê, construído à mão ao longo de séculos, conta a história de gerações de viticultores que moldaram a montanha. Enquanto prossegue a sua viagem, respire o ar quente do vale e tente imaginar os barcos rabelos, carregados de pipas, navegando lá em baixo nas águas traiçoeiras do Douro antes da construção das barragens.

Eles levavam daqui não apenas uma bebida, mas a prova de que a lei e a natureza podiam trabalhar juntas para criar algo eterno. Sinta-se parte desta história, pois ao pisar este solo, está a caminhar sobre a primeira fronteira vinícola do planeta.

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