The story
Bem-vindo à Rua da Alfândega. Sinta o ar húmido que sobe do Douro e deixe o seu olhar subir pelas paredes de granito desta que é uma das construções mais emblemáticas do Porto. Sou a Avsha e vou guiar a sua imaginação através das camadas de tempo que se escondem atrás destas pedras.
Estamos perante a Casa do Infante, um edifício que começou por ser a Alfândega Régia e a Casa da Moeda, mas que ficou gravado na memória coletiva como o local de nascimento, em 1394, do Infante Dom Henrique, o mestre dos Descobrimentos. No entanto, para compreendermos a verdadeira alma deste lugar, não podemos olhar apenas para as janelas ou para os brasões. Temos de olhar para baixo, para as entranhas da terra.
Quando este edifício foi restaurado e estudado arqueologicamente na década de 1990, o Porto revelou um segredo que guardara por mais de mil e quinhentos anos. Sob o pavimento onde os mercadores medievais pesavam as suas mercadorias, descobriu-se uma luxuosa domus romana, uma moradia aristocrática que prova que, muito antes de Portugal existir, este já era um centro de riqueza e poder. O grande destaque desta descida ao passado é o magnífico mosaico romano do século IV.
Ao aproximar-se dele, imagine que está a entrar na sala de receção de um influente cidadão da antiga Portus Cale. As pequenas peças de pedra, as tesselas, formam padrões geométricos complexos em tons de ocre, vermelho e branco, que ainda hoje conservam uma vivacidade impressionante. Este não era o chão de uma casa qualquer; era o símbolo de uma elite que enriquecia com o comércio marítimo, o mesmo comércio que, séculos mais tarde, o Infante Dom Henrique viria a impulsionar a uma escala global.
É fascinante pensar nesta continuidade. No mesmo espaço onde um romano outrora olhou para o rio e planeou rotas comerciais, nasceu o homem que enviaria caravelas para o desconhecido. O mosaico que vemos hoje é o testemunho silencioso de que o ADN do Porto sempre foi feito de trocas, de movimento e de uma profunda ligação às águas.
Ao percorrer as salas da Casa do Infante, sentirá a transição brusca entre o rigor medieval da Alfândega e a sofisticação clássica da domus romana. Este lugar é um palimpsesto, um livro onde a história foi escrita e reescrita. Por isso, quando sair daqui e caminhar novamente em direção à Ribeira, leve consigo esta imagem: a de uma cidade que cresceu por camadas, onde cada passo que damos na calçada moderna ecoa sobre os desenhos geométricos de um passado romano que ainda nos sustenta.
O Porto não começou com os reis; começou aqui, neste chão de pedra colorida, à beira do Douro.