The story
Bem-vindos à Rua das Carmelitas, aqui mesmo no coração do Porto. Olhem para esta fachada neogótica imponente. Estão prestes a entrar num lugar que muitos chamam de a livraria mais bonita do mundo, mas preparem-se, porque o que os vossos olhos vão ver nem sempre é o que parece.
Assim que cruzarem o umbral da Livraria Lello, o vosso olhar será imediatamente sugado para o centro da sala. Ali, ergue-se uma escadaria carmesim, sinuosa e orgânica, que parece ganhar vida própria enquanto serpenteia até ao primeiro andar. É uma peça de engenharia audaz, inaugurada em 1906 pelo engenheiro Francisco Xavier Esteves.
Mas aqui começa o primeiro segredo. Ao olharem para aqueles corrimãos detalhados e para os ornamentos esculpidos, a vossa mente dirá que aquilo é madeira exótica, pesada e antiga. No entanto, se pudessem tocar-lhe com a ponta dos dedos, sentiriam algo diferente.
Aquilo que parece madeira é, na verdade, gesso pintado, uma técnica decorativa magistral que engana os sentidos há mais de um século. O uso do gesso permitiu formas que a madeira dificilmente aceitaria, criando este aspeto fluido e quase líquido. Enquanto sobem os degraus vermelhos, é impossível não pensar no fenómeno Harry Potter.
Durante anos, correu o mito de que J.K. Rowling, que viveu no Porto nos anos 90, se teria inspirado nestas escadas para criar as escadarias movediças de Hogwarts.
Milhares de fãs viajam de todo o mundo para ver o "berço" da saga. Contudo, a própria autora revelou recentemente que nunca visitou a livraria enquanto morava aqui. Pode parecer uma desilusão, mas observem bem o ambiente: o vitral gigante no teto com o lema "Decus in Labore", as estantes que tocam o céu e os bustos de escritores portugueses.
A magia da Lello não precisa de confirmação literária; ela existe por direito próprio. Rowling pode não ter escrito aqui, mas a atmosfera mística do Porto e a elegância desta escadaria são o tipo de realidade que torna qualquer fantasia credível. Antes de continuarem a vossa exploração, olhem para cima, para o vitral.
Ele não serve apenas para iluminar; é o guardião da dignidade do trabalho, a alma da família Lello. Esta escadaria, que sobreviveu a guerras e crises, continua a ser o palco onde o gesso se finge de carvalho e onde o mito se confunde com a história. Respirem o cheiro a papel antigo e deixem-se envolver por esta ilusão perfeita.
Afinal, no Porto, a beleza tem sempre várias camadas de mistério.