The story
Bem-vindo ao átrio da Estação de São Bento, um lugar onde o tempo parece ter decidido parar para contar histórias, mesmo enquanto o mundo lá fora corre para não perder o comboio. Eu sou o Avsha, e convido-o a fechar os olhos por um breve momento antes de começarmos. Sinta o eco das vozes, o deslizar das malas no chão de pedra e o aroma a café que paira no ar.
Agora, abra os olhos e olhe em volta. Estamos num dos terminais ferroviários mais bonitos do mundo, mas antes de ser este templo do movimento, este solo era sagrado de uma forma diferente. Aqui erguia-se o Convento de São Bento de Ave-Maria.
Diz a lenda que, após a ordem de extinção das ordens religiosas, a última freira viveu aqui sozinha durante décadas, e só após a sua morte, no final do século dezanove, é que o convento foi demolido para dar lugar ao progresso. O arquiteto José Marques da Silva, um nome central na estética do Porto, projetou esta fachada monumental com influências de Belas-Artes francesas, mas é no interior que a alma da cidade se revela. Caminhe até ao centro do átrio.
Está rodeado por mais de vinte mil azulejos. Estas peças de cerâmica azul e branca são a obra-prima de Jorge Colaço, que dedicou onze anos da sua vida a pintá-las. Se olhar para a parede à sua esquerda, verá cenas épicas da história de Portugal.
Ali, a Batalha de Aljubarrota ganha vida em tons de azul, mostrando a determinação de um povo. Mais adiante, verá o Infante Dom Henrique na conquista de Ceuta, um momento que marcou o início da era dos Descobrimentos. Mas nem tudo é guerra e conquista.
Olhe para os painéis que retratam a vida rural. Veja as vindimas no Douro, o transporte do vinho em barcos rabelos e as feiras de gado. É uma homenagem ao povo anónimo que construiu o Norte.
E se levantar o olhar para o friso colorido, mesmo junto ao teto, verá a evolução dos transportes, desde a roda primitiva até à chegada do próprio comboio. A Estação de São Bento não é apenas um ponto de partida ou chegada; é a porta de entrada para o Vale do Douro. Daqui, os comboios partem em direção às vinhas que produzem o famoso vinho do Porto.
Antes de seguir o seu caminho, repare como a luz entra pelas janelas altas, iluminando as partículas de pó e as histórias gravadas nas paredes. Cada azulejo aqui é uma página de um livro que nunca se fecha. Quer esteja prestes a apanhar um comboio ou apenas de passagem, leve consigo esta imagem: o Porto é uma cidade de granito, mas o seu coração é feito de cerâmica e de luz.
Aproveite cada detalhe e boa viagem.