The story
Bem-vindo a um dos cruzamentos mais vibrantes e magnéticos do Porto. Estamos na esquina da Rua de Santa Catarina com a Rua de Fernandes Tomás. Pare por um momento, respire o ritmo desta cidade e olhe para cima.
É impossível não se sentir absorvido por este mar de azul e branco que reveste quase inteiramente a Capela das Almas. Esta pequena igreja, dedicada a Santa Catarina e às Almas, é possivelmente o edifício mais fotografado da cidade, e por um motivo óbvio. Ao contemplar estes painéis monumentais, a sua mente viaja automaticamente para o apogeu do barroco português.
A técnica, o uso dramático das sombras e a grandiosidade das figuras sugerem que estamos perante uma obra do século dezoito. Mas aqui reside o grande segredo deste monumento: o que está a ver é um magnífico exercício de ilusão e revivalismo histórico. Estes quase dezasseis mil azulejos não têm séculos de idade.
Eles foram criados e colocados aqui apenas em 1929. Até ao início do século vinte, as paredes exteriores desta capela eram simples e despidas de qualquer ornamento. Foi o artista Eduardo Leite quem recebeu a missão de transformar esta estrutura.
Ele pintou os painéis na prestigiada Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, em Lisboa, com uma mestria tal que conseguiu replicar na perfeição o estilo clássico de duzentos anos antes. O objetivo era dotar a igreja de uma dignidade visual que acompanhasse o crescimento comercial e social desta zona. Se observar as cenas representadas, verá que elas contam histórias de devoção e sacrifício.
De um lado, temos episódios da vida de São Francisco de Assis, como a morte do santo e a estigmatização. Do outro, encontramos o martírio de Santa Catarina de Alexandria, a padroeira que batizou esta rua. Note como as molduras pintadas no próprio azulejo imitam a talha dourada, criando uma profundidade que parece saltar da parede para o passeio.
O contraste aqui é o que torna o Porto tão especial. De um lado, temos o bulício frenético do comércio, o som dos passos apressados, os artistas de rua e as vitrines modernas. Do outro, a serenidade estática destes painéis que, apesar de tecnicamente modernos para os padrões da história da arte, nos ancoram numa tradição que define a alma portuguesa.
Antes de continuar a sua caminhada, aproxime-se de um dos cantos inferiores. Observe o brilho do vidrado e a precisão do traço de Eduardo Leite. Em 1929, o mundo estava prestes a mudar drasticamente, mas aqui, nesta esquina, o tempo decidiu parar e fingir que era para sempre barroco.
Aprecie este manto de cerâmica e deixe que o azul do Porto guie o seu caminho pela Rua de Santa Catarina.